Sempre quis assistir Os Desajustados por conta dos Misfits, de Danzig e companhia. A escolha de nome é "ajustada" — "fitting" diríamos em inglês (não peço perdão por trocadilhos) — para o batismo de uma banda punk, especialmente uma baseada em humor mórbido, como os Misfits. O filme de John Huston (ou seria mais de Arthur Miller?) é, de fato, mórbido — mesmo que sem o teor cômico —, para além das implicações externas e quase míticas ligadas às mortes de suas estrelas, sendo o veículo derradeiro de duas divindades hollywoodianas: Monroe e Gable.
A morte paira pelas personagens, perdidas numa velha noção de "velho oeste", que já não corresponde ao mundo contemporâneo em que habitam. Roslyn, interpretada pela icônica Marilyn Monroe, serve como um compasso moral esquecido, ou talvez nunca antes vislumbrado pelos aparentes "desajustados", dentre eles Gay (sarcasticamente nomeado "Feliz" *), interpretado pelo também antiquado Clark Gable, outrora "Rei de Hollywood".
A escalação dos atores funciona como gesto metalinguístico (e talvez algo cômico também, ao sugerir que essas grandes estrelas seriam desajustados sociais) por parte do filme, assim como Gay colar na porta de um armário recortes de Roslyn vestida de dançarina, o que remete à sua condição externa de estrela do showbiz. A narrativa também se desenrola numa cidade típica do faroeste, contendo elementos modernos que conferem a ela e às próprias personagens um caráter anacrônico. Uma reflexão sobre o passado do espetáculo e, por metonímia, do sonho estadunidense.
Testemunhando cenas brutais e animalescas (nem sempre mas por vezes relacionadas com cavalos), Roslyn luta contra a crescente descoberta de que sua fuga para o "interior" em busca de uma pausa idílica, um refúgio onde poderia "apenas viver" e ser "livre", é impossível, ou mero sonho, como os que a Hollywood clássica produzia.
O refúgio, no caso, toma a forma de uma casa inacabada, como os casamentos de Roslyn, recém-divorciada, e Guido (Eli Wallach), cuja esposa faleceu repentinamente. Um lugar despido, em ruínas mesmo antes de ser algo, ecoando o deserto no qual o clímax do filme se desenrola.
O deserto de Nevada é onde abandonamos nossos passados, nossos sonhos e pesadelos, segundo Isabelle (Thelma Ritter), assim como nossas bombas atômicas. Sua paisagem lembra uma fotografia da lua, como diz Montgomery Clift (por sinal, famosamente referenciado por outros punks clássicos, no London Calling). De longe, a lua é um sonho, brilha e nos direciona, como as estrelas à noite. No final da década de 1960, um caubói de fato chegaria ao espaço e pisaria nela, confirmando que somos minúsculos e que o sonho é uma paisagem árida e vazia. O deserto como palco simbólico de duas (nada) distintas guerras tecnológicas travadas pelos EUA, sonho desencantado.
Da mesma forma, as belas flores e o jardim que Gay e Roslyn plantam, a fim de edificar seu romance inesperado, só pode sobreviver se coelhos forem caçados. O companheiro cão só dá seus pulos de alegria por ser alimentado com ração feita à base de carne de cavalos.
A violência é a dança do homem, seu strip-tease, como Gay sugere a Roslyn. Para algo viver, é preciso que algo morra. Para ser livre na terra da liberdade, é preciso vender sua humanidade. Que outra escolha temos? "Wages?!" sempre ameaça Gay a seus comparsas. Uma tragédia americana: no capitalismo é possível ser livre, um self-made man, mas, no fim das contas, a maioria se escraviza ao trabalho assalariado. De uma forma ou de outra, desumanizados — já mais parecidos aos cavalos e aos touros do rodeio. Afinal, alguém precisa sofrer pela liberdade e pelas finanças do outro.
Contudo, uma escolha ética talvez seja possível. Percebe-se, cedo ou tarde, que só se pode ser livre no amor, jamais no jogo ou nas finanças, e que só pode ser amado quem ama. Ou melhor, nem no amor seríamos livres, mas, sendo uma vida obrigatoriamente ligada a outra, que nos amemos. Vende-se, então, a força de trabalho, apenas, no lugar da própria alma, que resguarda algo humano ao se prender ao amor, ao relacionamento romântico.
Quanto a esse último ponto, o filme joga com nossas expectativas e julgamentos: dentre esses três homens, que disputam a atenção de Roslyn, há nos olhares de algum deles realmente amor e compreensão, ou apenas desejo e frustração? A câmera inclusive explora isso a partir do ponto de vista masculino, dissecando com a montagem o corpo de Marilyn Monroe. A vontade dos homens de possuir a mulher é colocada em paralelo à sua ganância e à sua pulsão de morte. Por consequência, a mulher é colocada como contrapeso moral, o qual só pode redimir o homem que a vê para além de sua beleza externa, ou mais: que a escuta, se não como pessoa, enquanto fonte de uma inocência perdida nos corações desérticos dos homens.
* Em relação aos nomes das personagens, me peguei pensando na similaridade sonora aos de seus respectivos intérpretes, especialmente: GAYlord—GAble e RosLYN—MariLYN.