domingo, 27 de outubro de 2024

Anotações: Os Dias Ateus (2024), de JP Faro


    Talvez a chave para Os Dias Ateus, novo curta de João Pedro Faro, seja uma das frases confidenciadas por seu protagonista (interpretado por Bruno Lisboa) a seu fiel gravador: "não sei se essa é uma informação ética, mas a imagem vale a pena". No caso, a informação se trata da descrição sangrenta da trágica morte do escritor paranaense Wilson Bueno, cujo livro de 1987, Manual de Zoologia, se torna um dos três totens do protagonista de Faro, o anônimo e recém deformado Escritor (cuja cabeça coberta por ataduras que o fazem lembrar o Homem Invisível, de HG Wells, ou o Rosto da Maldade, de Teshigahara). E, à luz da morte de Bueno, o Escritor de Faro vai resolver se consagrar enquanto escritor da última forma que lhe parece viável: protagonizando um estranho ritual erótico e tétrico. Mas antes de falar do ritual, clímax do filme, aos totens:

    O Gravador:

    Aspirante a literato, após ter sido atingido por uma barra de metal na cabeça, o protagonista perde misteriosamente sua capacidade de escrever, mas não de ler (será que conseguiria assistir filmes?), e passa a refletir sobre sua condição enquanto artista, tanto no sentido da dificuldade de expressão pessoal quanto de inserção no mercado/circuito literário. Em seu gravador, outro totem, a partir do qual o Escritor narra seus pensamentos vocalmente, uma vez que incapacitado de escrever (debilidade cruelcomicamente demonstrada em dois planos em que o Escritor falha miseravelmente em escrever, primeiro num computador, depois numa folha de papel). Contudo, o problema da expressão artística não passa apenas por uma deficiência física mas também pela limitação da palavra, do verbo que não é capaz de traduzir, de manifestar concretamente o que a personagem diz sentir (em uma cena, o Escritor comenta como gostaria de poder gravar com seu gravador um estranho ruído que só ele escuta, o qual serviria melhor para expressar o que sente). 

    O Manual de Wilson Bueno:

    O primeiro totem do protagonista, como já mencionado, é o livro de Bueno, Manual de Zoofilia. Não li o livro (ainda, pois as breves passagens possíveis de serem entrevistas no filme despertaram minha curiosidade), mas como o próprio Escritor discorre, as descrições de "bichos" (há, a princípio, desde dinossauros a crianças sendo descritas como animais) de Bueno embaraçam conceitualmente a escrita técnica e a poética. A narração do protagonista de Faro também se encontra num meio termo similar, com a primeira metade do filme dedicada a uma exposição quase documental (documentária) do Manual de Zoofilia, algo como uma mini resenha, e dos acontecimentos em torno de seu assassinato por um garoto de programa, incluindo sua cobertura na imprensa e televisão.
    O título Zoofílico do livro de Bueno e sua morte se ligam a questão do sexo, fazendo o próprio protagonista relembrar seu episódio com o agente cultural, e reavaliar que talvez devesse ter se permitido ser abusado 

    A arma sem balas:

    O Escritor nos admite que só permanece vivo devido a uma herança de seu avô, que o legou um imóvel, dinheiro e principalmente uma arma sem balas. A primeira metade do filme, na qual escutamos suas gravações, é dedicada a planos extremamente próximos do protagonista, filmados da cintura para cima ou até closes, que exploram de maneira por vezes cômica seus lábios e olhos se movendo por trás das bandagens, enquanto ele observa a cidade, assiste pornografia homossexual, ou manuseia o livro, o gravador ou seu revólver. O fato da arma não possuir balas revelará o caráter cênico das ações do Escritor. 

    O ritual:

    Já a questão da inserção de um novo autor no mercado editorial e círculo literário é colocada com a descrição de um episódio traumático, no qual o Escritor foi quase vítima de abuso por um agente cultural, dono de um teatro, o qual o alerta de que é assim que a banda toca mesmo, de que aquilo é não apenas necessário mas inevitável para se tornar um grande escritor --- quase como um rito de passagem, pode-se pensar (sem nenhum sarcasmo, mas com muita ironia da parte de Faro, o Escritor assume que para um agente da cultura o abuso sexual é natural como o garrancho para um médico ou a mão engraxada para um mecânico). Assim também a morte ou o costume de Wilson Bueno de se envolver com garotos de programa é visto como um ritual necessário para se consagrar como autor literário (em determinado momento, o Escritor diz algo como "talvez eu nunca vá ser um escritor, porque nunca paguei por um garoto de programa").
    E aqui retorno a imagem que apesar de antiética vale a pena: o sangue do poeta, do cronista, do tecnicista de manuais, esparrado por seu apartamento. Para o Escritor, o ritual possível para se tornar de fato, bem, um escritor. Aqui, descrevo a segunda metade do curta de Faro, em que é abandonada a narração em off e os planos fechados e nos encontramos no território de planos abertos, em que o que o Escritor primeiro rouba um cano metálico de um canteiro de obras e eventualmente se encontra com um garoto de programa (Vitor Lambert) numa esquina, por onde carros não param de passar. Assim, somos introduzidos à segunda personagem, creditado apenas como Garoto de Programa, e é de se destacar como o filme as credita por suas funções, de maneira análoga a como o Manual de Zoofilia nomeia seus animais a partir de suas meras nomenclaturas --- não é o terreno de apelidos ou nomes próprios. Essa nova personagem passa a seguir o Escritor, subindo escadas e atravessando um ou outro pedestre, ao decorrer de alguns planos, até que eles param próximos a um canteiro de flores, se encaram e começa uma bela montagem do filme. A montagem foca na mão do Escritor, que estende para o Garoto algumas notas de dinheiro. Enquanto o Garoto toma posse do cano de metal, o escritor se agacha, virado de costas para ele, numa posição que lembra o ritual suicida japonês do seppuku, no qual um samurai abre seu próprio bucho com uma espada e posteriormente é decapitado por outro. No momento em que o Garoto levanta o cano para golpear o Escritor, nos é mostrado diferentes ângulos desse "duelo final", e logo quando o Garoto está prestes a desferir o golpe pelo qual foi pago, o Escritor se vira com o revólver vazio e dispara em vão, para em seguida ser brutalmente golpeado até a morte. Após o primeiro golpe, entretanto, é seguido não pela imagem explícita de seu assassinato (assim como seu acidente e sua deformação física permanecem escondidos), mas para um plano do canteiro de flores. Como dito anteriormente, a bala inexistente revela o caráter meramente cênico do evento orquestrado pelo Escritor: sua própria morte, depois da qual somos informados por seu gravador que suas gravações de áudio foram mandadas para grandes editoras do país e que ele tem certeza que seu som reverberará. Igualmente, o Garoto, após performar seu ato, seu programa, larga o cano no chão e foge da cena. O cano ecoa ao lado do corpo do Escritor, que já havia sido lesionado fisicamente por outro pedaço de metal. Sua cabeça também possuía uma placa de metal após a cirurgia.
    Uma imagem antiética foi mostrada, como a que os jornais divulgaram da morte de Wilson Bueno: um escritor ensanguentado, cujo ritualização da própria morte-sexo é sua forma de escrever e se inscrever num mundo em que se tornou invisível. Afinal, é seu sangue a tinta de que precisa; é o eco do cano que o golpeou caindo no chão que expressa melhor do que quaisquer palavras seu sofrimento.

    O que fica do filme de Faro é bela síntese discursiva, que gira em torno dos três totens de sua personagem principal e seu fascínio pela morte do escritor paranaense, mas principalmente a bela montagem final, a qual remete a procedimentos dos quadrinhos, picotando a cena em diferentes ângulos, de maneira não realista nem naturalista, trabalhando com outro tipo de temporalidade, a qual, apesar de dilatar o tempo, opera numa lógica de encenação que foge da regra do cinema brasileiro de festival, e portanto muito bem-vinda. Afinal, mais do que literatura, Os Dias Ateus parecem dialogar com o cinema marginal brasileiro. Há um senso de desolação que lembra o jovem Júlio Bressane, uma vontade de dialogar com diferentes texturas midiáticas (as páginas do livro, a tela do computador) que lembra o Bressane pós anos 1980, e é impossível não pensar em em Peréio com uma máscara de macaco e um óculos escuro, em Bang Bang, ao ver o Escritor, de Faro. 

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